A Esquizofrênica MTV

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Já teve a oportunidade de ver aquelas vinhetas bizarras da MTV, ao pior estilo André Breton? Pois eu lhe asseguro que é a auto-avaliação mais racional de uma emissora que se caracteriza pela irracionalidade. Eis os dois extremos pelos quais a citada empresa se locomove.

Eu sinceramente não sei por que cargas d’água a MTV acredita no sucesso das bombas musicais nas quais ela deposita grande parte de suas fichas, destinando uma parcela significativa de sua grade de programação para a exibição de supostas revelações nacionais e internacionais sem um pingo de talento. O MTV Lab Now sempre esteve repleto das piores porcarias em matéria de música que eu e qualquer um já teve o desprazer de conhecer. Contudo, nem isso chega a ser o mais cômico. O mais engraçado é observar que, malgrado merdas como Feist, Mallu Magalhães e MGMT tenham se liquefeito nas próprias fezes produzidas em escala industrial, a MTV insista em fazer publicidade desse gênero duvidoso, o lastimável indie rock, e de todos os natimortos gêneros alterna-qualquer-coisa.

Seria por si só desmoralizante constatar que uma empresa em tese especializada em música não emplacasse, dispondo de todos os recursos midiáticos/persuasivos de que dispõe, sequer UM ÚNICO embuste POP pseudo-intelectualizado entre seus telespectadores. Não, uma única forma de humilhação não é suficiente. Era de se esperar que, como engranagem da máquina infame da indústria cultural, a MTV também fosse subserviente aos desígnios dos que, como Tântalos de um banquete de mediocridade, se refastelam em cima da miséria cultural da imensa maioria da população brasileira, que espera da arte pouco mais do que uma catarse, um paliativo para a dureza da vida, ou uma forma de dar vazão aos mal refletivos desejos nascidos de sua opressão hormonal. A MTV, refém de si mesma, com os joelhos eternamente genuflexos diante dos ídolos tolos de uma juventude cada vez mais entorpecida pelo hedonismo e pela idiotização, parece incapaz de fomentar qualquer tipo de revolução cultural. Suas campanhas “pró-conscientização” são uma anedota; soa como se o próprio Diabo pregasse o evangelho…

Assistindo a tristes espetáculos da decadência humana, em especial o VMB e o Top Dez MTV, a impressão que se tem é que a televisão chegou finalmente ao fundo do poço, cavado à pá de retroescavadeira desde de sua fundação, e onde nem lama há mais onde chafurdar o focinho. No entanto, os porcos permanecem lá, esperando ansiosos pelos restos da lavagem como se ela fosse o néctar caído do Olimpo, quase todos filhos pródigos, bastardos ou legítimos, de uma elite formada predominantemente por ciborgues caça-níqueis desumanos e acéfalos. Com uma cara-de-pau de fazer inveja aos pinóquios do Congresso Nacional, os VJ’s e outros auto-intitulados numes da cultura brasileira distribuem prêmios a ridículas criaturas do calibre de um Restart, uma espécie de Menudos versão emocore.

No lastro da infâmia, a política de Recursos Humanos da emissora tem seguido a mesma diretriz que orienta a sua programação. Quase sempre calcada em critérios esdrúxulos na seleção de VJ’s, à semelhança de suas parceiras de crime tanto na televisão aberta quanto na indústria fonográfica, a predileção é pela contratação de candidatos com os rostos mais bonitos e com maior “renome” (leia-se “prestígio indevido”), neste último aspecto quase sempre provenientes do Lado B das emissoras de maior “renome” (leia-se “prestígio indevido”). Felizmente, porém, parece-me que a pretensão ingênita da MTV tem lhe servido ao menos de alguma coisa, pois onde as outras pecam, a MTV acerta em cheio -ainda que involuntariamente.

Não me surpreende que a maior parte dos funcionários mtvescos se (tra)vista como um cosplay indigente, a exemplo de MariMoon, Titi e Didi. Menos motivo de surpresa tenho com a quantidade de apresentadores e artistas que a MTV exporta de suas fileiras para o casting colossal das emissoras da TV aberta, principalmente na área do humor. A MTV, por força de sua tendência indie, gosta de buscar no curriculum vitae dos candidatos a VJ aquele Q de despojamento, um arremedo que seja de autenticidade, de personalidade formada. É evidente que, nos dias de hoje, nem sempre o avesso do mainstream deixa de ser, necessariamente, o próprio mainstream; mas se há um lugar onde se possa encontrar algo além, não é no catálogo de celebridades pré-fabricadas que se tornou a cultura nacional, inclusive a dita “erudita”.

Com efeito, são quase inexistentes, no palco da MTV, os bonecos de ventríloco que superabundam nos canais de comunicação visual mais populares. Os frontmen recrutados são avessos, em geral, às opiniões pré-estabelecidas, preferindo atuar na “recalcitrância” -como diria o mais empenhado e verborrágico membro do esquadrão, o figuraça Lobão. Isso, além de admirável por si só, torna a MTV uma máquina de produzir “formadores de opinião”; não é por acaso que vemos tantos humoristas de origem mtvesca serem sequestrados de sua programação para servir aos interesses dos Al Capones da Mass Media. Se não emplacam na TV aberta, o fracasso tem muito mais a ver com a mentalidade comezinha e amoral de seu novo patronato, de que a metáfora anterior dá uma boa noção…

Aliás, é irônico e sintomático que as mentes pensantes da MTV Brasil e do país sejam justamente os humoristas… Em época de eleições, os primeiros a sofrer censura são eles -veja você. Exploraremos isso mais tarde; por hora, importa analisar as implicações no tema em questão. Se os intelectualmente instigantes se encontram nos programas para fazer rir, os mais risíveis senhores circunspectos estarão, por força, na grade “séria” da programação, cuspindo seus cacoetes atos-reflexos de proto-pensamento industrializado (o famigerado “politicamente correto”). Não, não é um silogismo; a inversão na ordem natural das coisas é flagrante na TV aberta e não escapa de aparecer na MTV também, quando o tiro sai pela culatra. Pare e pense: não falo a verdade?! Quando a MTV busca um ser sui generis à feição, a criatura em questão nem sempre é dotada do espírito vivaz que alimenta os talentosos; em assim sendo, a moeda de troca desses vasos gregos e opacos se reduz à regurgitação de amenidades (também conhecida como baba-ovismo descarado), imoladas em holocausto tanto a falsos deuses quanto a falaciosos diabos.

De qualquer forma, a MTV tem se mantido na corda bamba sem perder o equilíbrio. Nesse ritmo, e com 15 quilômetros de rodagem, merece todos os nossos aplausos.

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