Crepúsculo: as razões por que é um filme tão ruim

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Muita gente ignora a riqueza da releitura que obras como “Vampiro: A Máscara” fizeram da lenda ocidental dos vampiros. O preconceito simplesmente as impede de reconhecer, num humilde RPG, um ambiente propício à reelaboração e ao aprofundamento de questões humanas cruciais. Esse tipo de gente vive num espaço restrito, onde as paredes são colocadas à revelia da consciência; onde a perspectiva é limitada a um buraquinho ínfimo do “razoavelmente aceito”, cavado pelo mais comum dos sensos, para que a avidez humana por respostas seja, ainda que insatisfatoriamente, saciada.

Eu gosto, é natural, que as pessoas experienciem a diversidade. Ainda que sejam gêneros, e espectadores, e narrativas discriminados de alguma forma, fico muito feliz que exista quem navegue contra a maré, ignorando as perseguições que possam advir de suas escolhas. Por essas e por outras é que eu fui assistir, sem maiores problemas, a um filme destinado a adolescentes na puberdade (é a crítica de alguns), repleto de conservadorismo (é a crítica de outros), ou de feminismo (retrucam terceiros), e feito milimetricamente para vender (uma das críticas que eu mesmo fiz depois, se não me engano).

E Crepúsculo é, de fato, uma bela de uma porcaria. Não pelas razões supracitadas, melhor dizendo, razões que são critérios sim, mas que se baseiam em argumentos secundários, quiçá pessoais, valorizando ou depreciando a obra em função de convicções pessoais. O filme Crepúsculo é ruim simplesmente porque não respeita a inteligência de quem o assiste; seus personagens não têm consistência, seu enredo é bem tosco e sua capacidade de problematização é, para dizer o mínimo, de extrema, absurda superficialidade. É uma película que não serviria para educar nem crianças acéfalas ou com grave retardo mental.

Por isso é que não ganha força o argumento da suposta “adolescência” do filme, quando alguns tentam defender “Crepúsculo”. Por mais que a proposta de uma obra seja abordar questões consideradas “menores”, isso não lhe dá o direito de se fazer menor e, consequentemente, fazer menos de quem assiste, menosprezando a capacidade crítica de seu suposto “público-alvo”.

Uma das ficcionalizações mais interessantes que Vampiro: A Máscara fez do universo cainita diz respeito à necessidade de mudança e/ou confrontação entre paradigmas éticos com os quais convive uma pessoa que se torna vampira, ou seja, perde sua condição humana, principalmente no que reporta à sua nova posição ante a sociedade humana, de “pária”, ou “indesejado” ou mesmo irreconhecido; forçosamente, a necessidade de se saciar de sangue humano (ato imoral) e de se posicionar diante de um cenário potencialmente hostil, leva o neófito a adotar como filosofia, basicamente, ao longo de sua eternidade, uma destas duas alternativas: ou luta inutilmente contra seus instintos, levando uma pós-vida de sofrimento físico e moral, ou cede, resignada e melancolicamente, ao abismo de sua degeneração moral e, naturalmente, psíquica. De qualquer forma, os caminhos conduzem a um único fim.

É interessante como os criadores do mundo desse famoso “jogo” introduzem o “jogador” ou “intérprete” num universo onde a famosa vida eterna vampiresca é relativizada, suscitando ainda outras reflexões de ordem metafísica e religiosa a respeito; não por acaso os vampiros de mais idade, em Vampiro, são semi-conscientes ou irracionais, e de aparência apenas vagamente humana.

E Crepúsculo? O que traz de relevante? Crepúsculo não traz nada. Um sujeito, com aproximadamente alguns séculos de vida, se apaixona por uma teenager que não oferece nada de interessante para alguém que, na condição de cadáver, não deve sentir mais tesão e  já viveu o suficiente para deixar se fascinar por qualquer suscetibilidade caramelizada. Edward se apaixonar por Bella simplesmente não cola… Para agravar, tornar palatável o universo cainita, “desestressá-lo”, solarizá-lo é uma alternativa que, além de perigosa em termos de conteúdo, talvez só fosse viável nas mãos de um escritor de talento colossal; para alguém como Stephanie Meyer, no entanto, pelo que nos faz acreditar a versão cinematográfica, foi a tampa que faltava para tapar uma sepultura imune a qualquer tipo de artifício sobrenatural… mesmo de marketing.

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2 comentários sobre “Crepúsculo: as razões por que é um filme tão ruim

  1. Victor Demitry

    Isso nem merecia passar nos cinemas, ou na televisão, isso só crítica os vampiros e lobissomens(o segundo amigos não tenham duvidas que existem,nao como os disso.que chamam de saga)Os lobissomens são criaturas resultado de uma metamorfose,de um homem ou garoto que faz um ritual para ganhar “poderes”.
    Mas amigos esses não são tão fortes assim como se pensa, apenas com uma bala de prata (banhado a ouro, deixa eles mais vulneráveis ), disparada de um revólver 0.38 taurus ou magnus, deixas esses fedorentos(sim fedem a tapete molhado) estribuchando no chão.mas tem que ser no peito esrquerdo (mas perto da cravicula do que do coração)
    Nos interiores do nordeste é o que mas se tem, mas a mídia televisiva faz chacotas,e pouco casos em suas poucas matérias sobre esse assunto sério.

    • David Spranger

      “Crepúsculo” parece ser a história da tara de Stéphanie Meyer (Bella Swan) por homens mais velhos e misteriosos (Edward Cullen). Some-se a essa paupérrima motivação a inata incompetência da autora para lidar com o tema dos vampiros e pronto: o que temos é uma versão Glee, purpurinada, do sanguinário Drácula. Alegoricamente, o tema dos vampiros explora o desvio de conduta de certos grupos ou indivíduos isolados, que se creem superiores aos demais. “Evoluídos” biológica, intelectual ou espiritualmente. Só isso dá pano para manga. A própria obra original sobre o Drácula, de Bram Stoker, era uma transposição simbólica do universo social, moral, psicológico e até mesmo religioso da Grã-Bretanha vitoriana, de fins do século XIX, impregnada de decadentismo e dandismo por um lado e de puritanismo por outro. Ou seja, uma época de extremos. Mas é claro que você não vai ver nem resquício disso numa porcaria de um best-seller chamado “Crepúsculo”.

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