Lady Gaga: fenômeno sazonal ou… decadência sensacional?

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Emplacando um hit após o outro, Lady Gaga bem que poderia ser vista apenas como uma nova versão do entretenimento fácil oferecido pela indústria musical. Fenômenos sazonais como esses vêm e vão, no mundo pop. Anteontem foi a vez de Whitney Houston dominar os palcos, com seu vozeirão solene. Ontem, cederam a vez a uma jovial e, inicialmente, casta beldade chamada Britney Spears. Hoje, é o tempo da excêntrica e eletrônica Lady Gaga assumir a direção.

A propósito, a comparação mesma estabelece uma “linha evolutiva”; Lady Gaga incorporaria a fase “impura” de Spears a seu repertório e possuiria, ela mesma, toda aquela potência vocal típica de cantoras “classicas” de R&B, ao mesmo tempo sem perder a pose de simulacro da Madonna, com aquela pitada de Kylie Minogue. A mistura, em tese considerada, é indigesta. Tudo levaria a crer que Gaga seria uma espécie de Frankenstein às avessas, o bonus track feminino da cultura enlatada, fruto de cansaço e de mutações involuntárias. Sua extravagância mesma, marca indelével de um estilo que pouco se assemelha a uma individualidade, parece mais um indício forte a corroborar a tese de “filme de terror” que eu aventei.

Mas… Por que Lady Gaga fascina tanto? Será apenas curiosidade? Estratégia de marketing? Tesão?

É bom lembrar aos incrédulos que tudo isso as suas mais talentosas predecessoras tinham, de uma forma ou de outra, até de sobra. Mas o que lhes faltava talvez fosse esse mesmo elán… essa mesma presença marcante, indecifrável talvez. E única. As músicas de Gaga são absolutamente viciantes. Sua presença, estranhamente autêntica. Raras vezes houve um furacão assim, que eu me lembre nunca, a pôr nas paradas de sucesso praticamente um álbum inteiro ao refletir, talvez, uma personalidade tão escancaradamente saturada pelos signos da mass media

Mas eu sabia que, cedo ou tarde, veríamos acontecer o que conjecturo a respeito desse caso. Sempre tive um pé atrás quando me era dito ser descartável o mundo da cultura mainstream. Cultura é feita por humanos, e humanos não são descartáveis. Por mais que a ganância possa prevalecer sobre a sensibilidade, especialmente em nossos tempos, no fim das contas nada pode sobrepujar o espírito, especialmente quando sobeja. Digo isso porque acho que, em Lady Gaga, tenhamos chegado à culminância de um processo. Um processo de “reumanização”, ainda que a partir de doses cavalares de futilidade.

As letras de Gaga são podres, mas seu talento para compor é indubitável; ela, mais do que ninguém, capta o “clima” da pós-modernidade e sabe traduzi-lo de maneira até inteligente em seus apólogos da futilidade. A modulagem no tom de sua voz é muito bem empregada, encaixando-se perfeitamente nos diferentes climas de suas músicas, indo do lânguido ao agitado, do grave ao agudo, conforme o caso. Seus clipes são repletos de “scripts”  inovadores, bem como sua forma de se vestir -mesmo Alejandro, se visto mais de uma vez, parece mais como um “pós-Madonna” do que um mero pastiche, como foi tido. Não é só a sensualidade e o hedonismo: é o estranhamento, é o cansaço diante de tanta babaquice… Gaga é o Deschamps pós-moderno, o Marcel Gagá.

Eu gosto de Lady Gaga. Ela me lembra muito a ascenção de uma outra estrela pop que teve uma trajetória semelhante: Cindy Lauper. Cindy lançou seu álbum de estreia no início da década de oitenta, logo emplacando um sem-número de hits. O nome do disco,  “She is so Unusual”, chamava a atenção para o que, de fato, chamava a atenção a respeito dela. Com seus cabelos pintados em cores vibrantes, suas roupas fashion-punk e seu jeito blasé, quase debochado, Cindy causou frisson na mídia. Mais do que sucessos musicais, Cindy foi a responsável pela gênese de Madonna, que se beneficiou muito das sacadas de sua “musa inspiradora” justamente porque fora moldada, a princípio, para ser um clone da “garota incomum”.

Com o passar do tempo, no entanto, a garota incomum foi se tornando comum… e nem tão talentosa assim. Em meados da década de 90, Cindy revelou Cindy, ou seja, o que havia por detrás da personagem que “apenas queria diversão”. Mas ninguém viu, ou pior: ninguém ouviu…

Eu, sinceramente, espero que Lady Gaga não seja um deja vu. Malgrado suas semelhanças com Lauper, me parece que seu talento seja bem superior, tornando bastante remota a possibilidade de haver o desenrolar de uma novela pitoresca, de um remake protagonizado por anti-heroínas a la Lucíola hi-tech. E quanto ao contexto sócio-cultural de um álbum tão sugestivo como Fame: Monster, afinal, acho que há mais nessa relação do que sugere simplesmente um “mau romance”… Lady Gaga está certa, ainda que não saiba.

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2 comentários sobre “Lady Gaga: fenômeno sazonal ou… decadência sensacional?

  1. Felipe

    Claramente Lady Gaga veste-se dentro de uma personagem, agora pouco se sabe se essa personagem se assemelha ao eu-verdadeiro de Gaga. As músicas dela, de qualquer forma, são a tradução do mais verdadeiro pop que gruda-igual-chiclete e te deixa repetindo trechos da letra durante toda semana.
    Para quem usa tantas referências culturais e palavras como pastiche e blasé, era de se esperar um Google rapidinho para conferir como se escreve Kylie Minogue.

  2. Doctor Butcher

    Você tem razão. Não se pode dizer se a personagem de Gaga se assemelha a ela mesma ou a qualquer outra coisa. Nessas questões de identidade, pisamos sempre em campo minado, especialmente quando queremos ser objetivos. Por isso é que eu prefiro abrir mão da objetividade, muitas vezes. De qualquer forma, a culpa é minha; para um sujeito como eu, que já não acredita em identidade cultural, tampouco em identidade pessoal naturalmente, deixo alguns pisando em ovos ao moldar expressões “audaciosas” sem dar um mísero contexto. É provável que você tenha entendido uma crítica onde havia apenas uma observação.

    Mas isso era assunto que demandaria mais de um parágrafo, certamente um novo post, muito provavelmente um livro inteiro… Não cabe numa resposta.

    Quanto às referências culturais, meu caro Felipe, eu tenho um Google na cabeça de arquivos em pilhas de xerox do tempo em que estudava “Crítica Literária” e “Literatura”; dessa época, certas palavras ficaram grudadas na cabeça “feito chiclete”, também pela extravagância. “Pastiche” e “blasé”, por exemplo, são refinamentos de pesquisa mínimos para quem quer se aprofundar em assuntos como “paródia” e “ultra-romantismo”.

    De qualquer forma, agradeço pela atenção dada a meu texto. Providenciarei a Kylie Minogue.

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