Refletindo sobre o Cristianismo

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O sacrifício que Deus pediu a Abraão não foi cruel? E por que Ele pediu isso?

R: Para início de conversa, é preciso destacar que o sacrifício não foi levado a termo. Ou seja, embora Deus tenha pedido o filho único de Abrãao em holocausto, não foi o que, de fato, ocorreu. E por causa de intervenção divina, ainda que indireta.

Mas por que Deus pede uma coisa e muda de ideia? Não se trata disso. Deus já tinha em mente não matar o primogênito de seu servo; Ele esperou apenas que Abraão tomasse a atitude que Ele já imaginava. Uma vez provada sua fidelidade e, sobretudo, o amor a Deus sobre todas as coisas, não havia necessidade de mais nada. Muita gente poderia dizer que o ato de Abraão foi de uma “confiança cega” e que isso definiria a Fé (como Kierkegaard);  na verdade, estou mais inclinado a acreditar que a Fé/redenção/justificativa da existência se dá no preciso momento em que Abraão e Deus se (re)conhecem intimamente (é como se o ser se encontrasse, de repente, refletido no Ser -e vice-versa -durante o processo de “existência”). No exato momento da “fusão” entre homem e Deus, a ideia que nasce (o Verbo de Deus e o filho do homem) é imperecível.

Muita gente pode achar cruel testar uma pessoa dessa forma. Mas e a crucificação de Cristo, não foi cruel? Existem muitos pontos em comum entre o episódio do sacrifício de Abraão e o ocorrido no Calvário, já no Novo Testamento; a maioria simplesmente não para para refletir sobre isso. E isso não é mau. Abraão não se negou a entregar, em benefício de Deus, seu filho único; de forma similar, Deus não Se negou a entregar Seu filho único em prol da humanidade, naquilo que ela tinha de “herança” de Abraão, pelo menos.

Na verdade, Deus foi além, porque é mais perfeito e é mais capaz. Não tendo pecado nem tido necessidade de se justificar, Deus fez com que seu Cordeiro Imaculado derramasse seu sangue sob circunstâncias aviltantes, como holocausto em nome do pecado de todos os outros contra Ele próprio. Tudo para libertar da condenação eterna justamente aqueles que o haviam vilipendiado, diga-se de passagem. E também para conscientizar, por que não?

Como se infere, toda a trajetória escatológica, da primeira à última redenção, tudo isso parece script de um roteiro divino. Roteiro divino que, é bom destacar, prescindiu do livre-arbítrio humano -o mais das vezes, sempre respeitado.

Jesus veio para abolir a Torá? E, se para Cristo não era fundamental seguir todos os preceitos à risca, por que se ocupar de questões doutrinárias, deixando de ter uma militância mais prática, mais comprometida com a realidade?

R: Não, Jesus não veio para abolir a Torá. Jesus não veio nem sequer para instituir uma nova Igreja. De tal forma que podemos afirmar, com segurança, que o cristianismo nada mais é do que um judaísmo aperfeiçoado. Tanto é que “Igreja Católica” quer dizer “Igreja Universal”; ou seja, presume-se que o catolicismo (ou o judaísmo) seja uma “interpretação cultural” inerente à própria essência do universo.

Acontece que, à época de Cristo (e de hoje também…), a alta cúpula dos judeus havia instituído milhares de regras que, ao mesmo tempo que alienavam as pessoas do verdadeiro sentido da religião, também faziam com que os demais judeus fossem mantidos sob o jugo da classe sacerdotal. Ademais, os poderosos do tempo (todos ligados à liderança espiritual em primeiro lugar), acreditavam piamente na salvação por meio da observância robótica de coisas mesquinhas, que, obviamente, não eram do interesse divino, sempre magnânimo, simples e superior.

O que o Senhor queria, na verdade, era uma entrega de corpo e de alma aos ideais superiores do judaísmo, dentre eles a humildade, o arrependimento, a dignidade. A Lei mosáica fora instituída, aliás, para confundir e retardar os atos do perversos, permitindo o desenvolvimento espiritual dos justos, pois leis existem justamente para coibir (quiçá acusar) os maus -e não para limitar os bons. Jesus quis deixar isso bem claro quando reduziu todas as leis a dois únicos preceitos, tanto mais perfeitos quanto mais positivos e universalizantes, reinterpretando, sob outro viés, o código de conduta repassado a Moisés. Para completar, Cristo destituiu os cultos sacerdotes de seus cargos ao empossar outros, ignorantes em sua maioria -mas que possuíam o comprometimento essencial com a verdade.

Sobre a questão das doutrinas, é importante frisar que elas não são um mero adendo ao cristianismo. A prática justifica e aperfeiçoa o que se diz em teoria? Sem dúvida! Mas sem teoria não existe prática, em geral, que se sustente por si só – a não ser em caso de graça absoluta. A palavra precede o ato. Foi assim que foi feito o mundo, assim será para mantê-lo, assim será para libertá-lo. De modo que, se dar comida ao pobre representa a libertação de seu corpo da fome, dar alimento ao seu espírito representa a libertação de sua alma da morte. O Verbo de Deus é o verdadeiro maná.

“Comprometer-se com a realidade”, dessa forma, torna-se algo muito relativo, não é mesmo? De que adianta limpar por fora, se continua sujo por dentro? Limpe por dentro, para que esteja limpo também por fora! Porque não é a matéria que vive, mas a alma é que é o motor da matéria. E é ela, a forma, quem vai continuar, quando o corpo, que devora a Terra, for consumido pela mesma. Não faz sentido, portanto, parecer bom somente aos que parecem desvalidos; melhor seria ser útil, em primeiro lugar, aos que não parecem estar mal, mas em cujos labirintos anímicos se esconde e propaga um câncer deveras letal: estes são os doentes mais terminais!

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