Ponto Facultativo

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Hoje foi dia de estreia do Brasil na Copa de 2010 e, como era de se esperar, o Brasil parou. Eu, no entanto, acreditava que essa afirmação fosse soar mais literalmente, e não como uma ironia. Pois, se todo mundo para por aqui, é para assistir aos nossos jogadores agindo por lá. Mas, se em plena Joanesburgo, território vuvuzelense, Kaká e cia também decretam feriado nacional, aí a sacanagem é acrescida ao marasmo: deixaram de jogar e esperaram que a camisa fizesse o resto, naquele balé de pernas-de-pau ensaiando samba, acompanhando à feição o coro “melodioso” das cornetas racha-tímpano…

A “tradição”, contudo, não veste camisa nem entra em campo. Nós sabemos. Não demorou muito para que os norte-coreanos também notassem isso (vejam só!), enfrentando, sem medo, os jogadores brasileiros e arriscando sair mais ousadamente para o ataque. Mas sua inteligência contrasta com sua qualidade. Diante desse panorama, a vitória tupiniquim era tão certa que mesmo a omissão em campo do plantel verde-amarelo seria uma pedrinha jogada contra a correnteza de um Rio Solimões; uma irrelevância probalística a ameaçar o fluxo natural dos acontecimentos.

O Brasil-de-chuteiras, por sua vez, insistiu na pedra que bate… até que fura. Foi jogado o mesmo jogo burocrático de passe para lá e para cá, sem espaço para reflexão, no gramado ou no vestiário, em cem por cento dos dois tempos. Mesmo tendo as jogadas manjadas e bem marcadas, o festival de maicondependência e de triangulação ao quadrado prosseguiu! Eu diria até mais, a respeito da mediocridade da Seleção: foi jogado o mesmo futebol apresentado na Copa de 2006! A mesma falta de responsabilidade, o mesmo abuso na displicência, com a notável e irrisória exceção de Robinho, que chamou o jogo para si, mas coitado, era uma andorinha só no inverno tenebroso do Elis Park.

Kaká parece até político brasileiro, pré e pós eleição. Ou aluno brilhante e neurastênico. Em amistoso e em eliminatória de Copa, o cara vai lá e arrebenta; na hora do pega-pra-capar, entretanto, ele amarela. Literalmente também, uma pena. De que adianta o sujeito estudar muito e ser reprovado no vestibular? E não estou sendo leviano, me baseando numa única atuação no maior torneio de Seleções do mundo; quem duvida pode pegar um vídeo da Copa de 2006, para ver com os próprios olhos como foi…

Mas, infelizmente para nós, cada vez mais o itinerário do Brasil nas Copas se assemelha ao famigerado empata-foda. Sob o pretexto do futebol-eficiência, os jogadores se escondem dos holofotes da pressão, ficando na sombra uns dos outros. Enquanto os lastimáveis cabeças-de-área esculpem, a carrinhos e caneladas, o futebol moroso do meio-campo, os homens inteligentes da Seleção, cada vez mais escassos, são podados de seu individualismo, a única coisa que poderia fazer a diferença, de fato e de direito, a favor do verdadeiro futebol brasileiro, pentacampeão sobretudo graças ao talento.

Copa, para o Brasil, é ponto facultativo: nunca pensei que isso fosse levado tão a sério! Os jogadores da seleção estão levando ao pé-da-letra o compromisso de servir à nação. De desservir à nação! Pois, como todo funcionalismo público que se preze, o time é um labirinto burocrático e foi dividido em repartições. Quer futebol bonito? Procure o otário do Kaká! O coitado, porém, foi sobrecarregado e só deixou a dez como sinal de sua presença. Corra pelo menos, pois daqui a pouco vão acabar com o seu setor também!…

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