As Pupilas Dilatadas do Mestre

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Paula Parisot, escritora, se enclausurou num cubículo montado numa livraria em São Paulo. Para quê? Para promover o livro “Gonzos e Parafusos”, de sua autoria. Nessa “apresentação” ela interpreta, segundo dizem, uma personagem esquizofrênica da mesma obra. A moça fez até com que o eremita urbano, Rubem Fonseca, saísse de sua clausura carioca para admirar tal performance litero-dramática.

Para quem ainda não processou, basta dizer que a autora em questão já conhecia o grande prosador-mor da marginalidade. Abordou-o numa padaria no Leblon (onde haveria, no Rio, de morar alguém que tem dinheiro?). A moça tem peito, disso ninguém discorda. Rubem odeia os holofotes e são quase que absolutamente nulas as chances de que ele acolha alguém afixionado pela sua figura autoral, seja por tietagem, seja por auto-promoção.

O caso de Parisot, ao que parece, era de auto-promoção. E o fato é que Rubem recebeu, de fato, os manuscritos da moça, um livro de narrativas curtas, e não só leu os textos como fez com que a Companhia das Letras o publicasse. É preciso destacar que essa editora é um dos monstros do mercado editorial; ou seja, escritor em início de carreira: no way… Mas não termina aí! Depois de acabar sua primeira incursão pela narrativa longa, Parisot encaminhou os novos originais à mesma editora, que os recusou. Coincidência ou não, Rubem Fonseca acabou saindo da Companhia das Letras e assinando com a Agir…

Controvérsias à parte, este não é um blog de fofocas: se quiser especular sobre o assunto, fique à vontade. Quanto a mim, o que me chama a atenção é o quanto essa garota é sortuda… e o quanto escolhe mal o uso que faz dessa mesma sorte! Nunca li Gonzos e Parafusos, mas posar de criativa e, ao mesmo tempo, (pros)seguir uma linha desgastada de temas “urbanos”, melando com mais violência e sexo um gênero obeso-mórbido como o da literatura marginal, segundo tem sido aventado por alguns críticos de seu trabalho, não colabora muito com uma visão muito simpática de quem verdadeiramente importa. Se você se diz pupila de Rubem Fonseca e usa o mestre como pistolão, menos ainda.

Na verdade, não obstante gente de fora considere as ações de Parisot simples marketing, quem está ligado à arte sabe que não é bem assim. Simplesmente não é. Se os livros, por exemplo, fossem reduzidos a mero relato do estado psiquiátrico do autor, relativamente à compreensão da sociedade, nós todos, escritores, teríamos sido arremessados em hospícios e amordaçados tal qual Hannibal Lecter. No que dependesse desta sociedade, o “escritor”, um dos últimos representantes da excentricidade de hoje e da “alta-cultura” de uma outra época, seria visto apenas como um artigo antiquado e indesejável, cujo destino poderia ser o lixo ou a prisão. Por isso, por intimidade e também por solidariedade, eu enxergo com ternura os atos de Parisot e evito de recriminá-los. Eu a entendo.

Como também entendo sua necessidade de fazer publicidade sobre sua obra, pois a vida financeira de um escritor não é fácil.

Mas o que Parisot não consegue entender é que seu ímpeto poderá destruí-la, ao invés de edificá-la. Ela se arremessa como um furacão sobre o turbilhão já vertiginoso dos fatos, esperando se salvar, presumivelmente, sem procurar meditar nem mensurar suas ações… Será que ela sairá ilesa disso? Uma das melhores coisas que minha experiência pregressa fartamente me ensinou, como escritor, é sobre a importância de manter a humildade e a tranquilidade. Ambos os atributos fazem com que você suporte a labuta diária de escrever, bem como a compreender que os percalços e as injustiças inerentes ao nosso ramo de atividade devem ser superados necessariamente através daquilo a que nos condenam: uma azáfama solitária, escura e longa; um garimpo que nada mais é do que uma espécie de (auto) comiseração humana. Quer dizer, até mesmo os obstáculos, se devidamente entendidos, devem funcionar na realidade como instrumentos de aprimoração.

No entanto, até mesmo aquele, chamado grão-mestre por muitos, que deveria retirar sua discípula daquela exposição selvagem e cruel, na verdade até se regozija com ela… “Oculto” no seu boné, enquanto o que esconde verdadeiramente do público são os olhos fascinados sob o Rai-Bam, Fonseca acua aquela sua outra pupila, sangrando ainda mais suas intimidades aos olhos de um público faminto, acossado por algum instinto primitivo de pré-racionalidade. Depois ele a atrai de novo, míope. E assusta. Fascinante como o sexo, a força onipresente de seus livros. Faz carinho, mímica, sorri, dá de comer… e Parisot de repente mais se assemelha a sua Isabela. Isso, sim, hiper-realismo!

Como se vê, a gente sempre demonstra certa solidariedade de classe…

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