Nada consta.

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Qual a diferença entre ser intelectual e ser culto? Difícil essa, heim?… É mais ou menos como perguntar, como faz aquela “música”, qual é a diferença entre o Charme e o Funk. Só que no extremo oposto da faixa média do coeficiente de inteligência das pessoas associadas a este último par.

Seria até imoral fazer essa distinção há dois séculos atrás, no tempo do Antigo Regime, porque ou você era um nobre vagabundo, ou se dedicava compulsivamente à leitura ou simplesmente era burro demais para aprender alguma coisa. Não havia meio-termo. Hoje as coisas ganharam uma relatividade tal que ninguém sabe dizer, com convicção, quem está com a razão absoluta numa discussão, se o perfeito idiota ou o pseudo-intelectual imbecil, duas das pragas que mais assolam o Brasil.

Como se diz, “em terra de cego, quem tem um olho é rei“. Todo mundo já furou o olho de todo mundo, no que diz respeito à honestidade intelectual, e agora fica à deriva, assistindo televisão. As pessoas se desiludiram dos caminhos da sabedoria e se renderam às facilidades do mundo pós-moderno. É claro que tal estado de coisas não poderia permanecer para sempre, porque ninguém aguenta viver na sujeira por muito tempo (lembra do filho pródigo?). Sempre tem uma parte em que entra aquela espécie de Eli da história, brandindo seu suposto livro sagrado e declamando sentenças de legitimidade moral duvidosa. Esse é o clímax.

Não que eu esteja roubando a prerrogativa de profeta de ninguém, não é nada disso; mas eu vou e tenho que entrar com o anticlímax. Porque as pessoas ingenuamente acham outras cultas só porque estas sabem meia dúzia de palavras a mais do que elas. Principalmente os brasileiros, que se impressionam quando um sujeito faz uma citação de, sei lá, Karl Marx, sendo que na verdade já deveriam saber de quem se trata desde as aulas iniciais de História Contemporânea, matéria da antiga oitava série ginasial; ou quando o malandro, sem critério algum, decora meia dúzia de versículos da Bíblia e lobotomiza seus ouvintes nos seus abatedouros de carteiras em forma de templos.

Eu mesmo sou super-estimado nesse quesito de erudição. Posso dizer, no entanto, que não sei nem um décimo daquilo que tive a oportunidade de aprender, ao longo de minha vida. Leio no máximo três, quatro livros por ano. Sou um merdalhão. Mas de uma coisa pelo menos eu orgulho, como guru espiritual dos deserdados de cultura, que é de minha honestidade; leio porque gosto, não porque demanda minha profissão ou requer o meu prestígio.Minha profissão e meu prestígio que se fodam.

Conheço muita gente que compreende que adquirir cultura é como correr os cem metros rasos; leem cem páginas em seis minutos e se vangloriam por causa disso. Não sei a quem eles gostariam de se igualar: se a Shakespeare ou a Usain Bolt. Sem falar naqueles que se regozijam e tiram onda por ler uns trocentos livros por ano, o que igualmente não faz sentido; pois existe um grande e óbvia diferença entre você ler num ano apenas a “Arte Retórica”, de Aristóteles, e a coleção inteira de obras do Frederick Forsyth.

Por essas e por outras eu me considero um intelectual, veja só que desgraça para nossa nação. Porque, segundo corrobora até o Aurélio, intelectual é aquele que se ocupa dos assuntos do espírito… como eu. Mas não me considero culto, porque a quantidade de cultura produzida pelo homem ao longo da história é quase que imensurável. O ideal e o natural, porém, seria ser os dois, eu sei.

Tudo atualmente ganhou uma nova perpectiva, entretanto. Os caras que pensam no Brasil também são aqueles que assistem BBB, também são os que se empanturram nos MacDonald’s. Mas alguns há entre esses que se enclausuram nas universidades-mosteiros-bunkers-revolucionários e escondem suas imperfeições; outros, menos interessados em promoções e utopias, mergulham na gordura trans da modernidade, em busca da verdade. E enquanto os primeiros produzem teses absurdas sobre coisa alguma, os segundos seguem falando merda com alguma espirituosidade em blogs inúteis por aí.

Porca miséria, não?

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