Papo com o Juca: ouvindo (e pensando) atrás (e além) da porta…

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Hoje eu fiquei assistindo ao programa do Juca Kfouri na ESPN. Para quem não sabe, trata-se de um programa de entrevistas, geralmente chato pra caralho, que eu não sei por que vem sempre me assombrar, especialmente quando eu mudo de canal querendo assistir futebol europeu. Hoje, no entanto, o Juca convidou um sujeito que era professor de história (ou qualquer coisa do tipo) e que morou durante muito tempo na França. Tudo isso só para falar sobre futebol e olimpíada… Ou seja, prometia.

Então alguém vem questionar nesse ponto: “Você acha que ele é digno de atenção só porque morou na França?” Bom, geralmente eu concordaria com essa observação, porque na verdade quase tudo do que vem da França é indigno de atenção, apesar de séculos a fio de babação de ovo do mundo ocidental. Contudo, alguém que já tenha vivido no continente europeu certamente tem uma perspectiva muito melhor do que nós sobre a maneira pela qual somos vistos pelos caras. Nesse sentido, e em se considerando que o entrevistado em questão era professor de história, o negócio tinha tudo para pegar fogo.

E pegou mesmo, embora não do jeito que eu esperava. Para começar, eu tinha a convicção de que o professor era de esquerda e iria fazer uma análise sociológica e subversiva do comportamento do “opressor” e do “oprimido“, dentro da conjuntura permitida por um programa esportivo; todo mundo no Brasil que já teve aula de história sabe não existir historiador tupiniquim que não seja marxista. Mas eu estava enganado. Depois, conforme o Juca foi perguntando a ele sobre questões políticas envolvendo olimpíada, Copa do Mundo e essas coisas todas, fui me preparando para ouvir respostas manjadas que eu já ouvira antes e previa de antemão. Mas eu estava enganado. De novo.

Até que ponto podemos ser ignorantes e ridículos? Ao limite do absurdo. O sujeito me apresentou uma nova categoria de professores de história e de franceses! Não que eu tenha chegado de repente à constatação da existência de historiadores alternativos no Brasil ou tenha passado a adorar Jacques Derrida e Gilles Deleuze. Não, em absoluto! Mas eu percebi que, tal qual eles nos enxergam de lá para cá como se estivessem de cima, nós também temos essa capacidade de enxergar daqui para lá como se estivéssemos de baixo.  É como se fosse uma imagem especular, refletindo preconceitos anônimos e harmônicos.

Só para ilustrar o que quero dizer, vou citar uma pergunta do Juca ao sujeito. Ele perguntou se o presidente Lula não havia influenciado diretamente, com seu carisma, na escolha do Rio como sede das Olimpíadas. O cara simplesmente negou. Negou e ainda disse que temos uma visão muito distorcida do que acontece lá fora; nós pensamos que eles olham para Lula como alguma espécie de Messias, mas não é bem assim. O Brasil foi escolhido sede simplesmente porque os países europeus já o foram consecutivamente, porque a Ásia já havia sido e, supostamente, o Brasil seria a melhor escolha, porque fica na América do Sul e já sediaria uma Copa antes, tendo uma estrutura aprimorada com muita antecedência à realização dos jogos olímpicos -uma questão de logística, economia e diplomacia.

Mas até aí estamos na Dinamarca -onde entram os franceses na história? O professor, que, como eu disse, já viveu na França, comentou sobre a recepção dos franceses à expectativa de um evento de grande porte sendo realizado num país pobre da América Latina. Está pensando que eles fariam críticas à nossa infraestrutura e  irresponsabilidade? Muito pelo contrário até: um jornal francês divulgou uma pesquisa com aprovação recorde à Olimpíada brasileira. O teor dos comentários variava do cômico ao pitoresco: os entrevistados comentavam sobre fazer uma visita ao Pão-de-Açúcar, depois de pegar uma praia em Fernando de Noronha, para viajar de trem em seguida para a floresta amazônica…

Que eles ignorassem nossa realidade, isso não era nenhuma novidade nas nossas cabeças. Pensam que somos macacos, cretinos, massas de manipulação… pensamos. Existe um ranço de ressentimento até no mais fervoroso dos direitistas brasileiros. Todavia, quem iria esperar que eles julgassem haver trens ligando o Oiapoque ao Chuí? No máximo pensaríamos que eles vissem nosso sistema viário algo como um Le Parkour sob cipós. Ignorância é uma coisa, burrice é outra, leve e fundamentalmente distinta. Além de não termos disponibilidade financeira para ferrovias modernas, esse não é um desafio de engenharia na mesma proporção que ligar Toulouse a Paris, no que toca aos percalços geográficos e às necessidades de economia de tempo das pessoas em geral, incluindo governos.

Impressionante como, até em razão da jumentice dos outros, nós podemos aprender. Eu, e garanto que toda a torcida do Flamengo, pensávamos sem pensar que o francês típico era ignorante quanto a algumas coisas, culto em relação a outras tantas e sempre, inequivocamente, inteligente. Está certo que, à excessão de Tomás de Aquino e alguns outros, sempre desprezei grande parte das “grandes” ideias francesas; não obstante, tinha para mim que (e secretamente, agora vejo…), num país onde até padeiro se torna phd em alguma coisa, não era possível haver pessoas burras.

Puro preconceito. Como os analfabetos, cremos nós, os letrados, livrarmos as pessoas das algemas da ignorância, assim que elas aprendem a ler. Mas ninguém se livra das algemas da ignorância; nós apenas nos tornamos menos prisioneiros quando nos damos conta delas e bolamos estratégias de sobrevivência a isso. Pois uma coisa é você se crer livre sem o ser, outra é você se fazer livre por causa da consciência de suas limitações. Dentre os esquizofrênicos sonhadores, por exemplo, existem os analfabetos funcionais, dentre os quais se destacam os acadêmicos brasileiros, sujeitos que defendem ideias fixas até o túmulo. Como disse uma vez o Olavo de Carvalho, se um desses caras cisma na quadradeza do círculo, fiat lux!

Por que eu disse isso? Ora, porque eu mesmo cria haver só um tipo de professor de história no Brasil, quiçá no mundo: o sujeito que enaltece os miseráveis e esculacha as elites “eurocêntricas”, em qualquer circunstância. O professor do Juca, pelo contrário, não perdia a oportunidade de alfinetar o ogrismo em tupi-guarani, sem fazer maniqueísmo no entanto, pois também atentava para a ingenuidade inocente dos europeus. Mas o cúmulo da constatação de minha miséria intelectual nem foi esse; pensar que só havia gente inteligente na França por conta dos padeiros que fazem doutorado?! Se os caras se fazem doutores e continuam padeiros, meu caro, então a grande instrução que tiveram foram as maneiras diferentes de fazer croissant… Estou errado?! Então dirijo-me aos padeiros também, tal qual aos professores de história: excuse-moi

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