O Auschwitz léxico

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É curioso notar como certas convicções, se deixamos que nos aprisionem, acabam por aprisionar também os outros. Onde começam os direitos de terceiros e terminam os nossos? Pode não parecer difícil a resposta, mas os efeitos reativos da pergunta ecoam, reverberam, reboam por uma sociedade democrática acostumada às amenidades, os ódios sublimados, e levada sistematicamente a ignorar suas próprias contradições.

Naturalmente que a arbitrariedade não cabe num regime liberal. Nos EUA, porém, até ontem você não poderia chamar um crioulo de black. Até há poucas horas atrás, chamá-lo de nigger seria uma afronta brutal. Hoje, e quero dizer agora, “afroamericano” é a nomenclatura oficial. Amanhã, sabe-se lá se chamar alguém de “afroamericano” será crime ou não… É bom não arriscar; quando aparecer um crioulo na sua frente e você não souber o nome dele, finja que não o viu, porque dar no pé talvez seja uma alternativa perigosa, considerando-se que deixa implícita a associação de “negro” e “crime”.

Esse tipo ridículo de censura não demoraria para ser macaqueado por aqui, uma vez que até nossos comunistas já se deixam influenciar pelo eterno “Grande Satã”. Porque eles acham que tudo o que tocam vira ouro, se multiplica, como Midas ou Jesus. E embora isso seja um fato com relação aos impostos criados e às verbas públicas superfaturadas, o mesmo não se pode dizer de seu dedo podre para a cultura, jogada às traças.

E jogada às traças no sentido lato. Por exemplo, a bola da vez por aqui é taxar de preconceituoso o uso de determinadas palavras. “Homossexual”, caso você não saiba, é considerada uma palavra discriminatória; o termo adequado é “homoafetivo”; logo, se você quiser se referir a algum gay, ainda que de forma neutra, não deve ser comparsa do “homossexual”, banido dos dicionários e da vida pública em geral.

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As prostitutas, de maneira semelhante, foram alçadas ao patamar de “profissionais do sexo”, embora isso não altere em nada nossa compreensão, valorativa e semântica, do referido “negócio” –nem a delas, espera-se. Mas “profissional do sexo” é decente, “prostituta” não! Ou seja, eu posso chamar minha vizinha evangélica de “profissional do sexo”, e ela não deve se sentir ofendida, porque o vocábulo é respeitoso. Exceto, é claro, se a profissional do sexo propriamente dita, a oprimida em questão, puser em cheque minhas intenções depreciativas, ocultas (não me diga!) na expressão. Neste caso, corro o risco de ser preso por preconceito, e a palavra, banida. Fomos desmascarados!

Sugiro que criemos uma lista de Aurélio, aos moldes da de Schindler, para salvaguardar as palavras ameaçadas de extinção ou cassação. Manter-las-íamos no sótão ou em cofres, ocultas ainda em livros, e nos absteríamos de pronunciá-las em público. Assim não correremos o risco de ser delatados, como cúmplices, pelos oprimidos que optaram por um método de aculturamento alternativo ao pensamento ocidental (a antiga e discriminatória “ignorância”). Assim, quem sabe, algum führer da democracia não as queime, em praça pública, na forma de bibliotecas inteiras, em nome da liberdade e da igualdade.

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