Planeta dos Macacos

Padrão

A gente percebe que está ficando velho às vezes pelos métodos mais curiosos,  como se as parcas desenvolvessem formas novas de urdir suas sacanagens. Porque era normal, até ontem, nos darmos conta da idade quando nos olhavávamos no espelho e víamos rugas e pelancas eloquentes -quando não grandiloquentes. Ou quando nos chocávamos com a eterna juventude transviada. Todavia, quando nada disso se encaixa no seu perfil, um tweenager em plena atividade, às vezes uma simples pergunta contém em seu bojo uma gama tal de novas questões e respostas que… acabam por lhe deslocar, inexoravelmente, no espaço-tempo. Eis a velhice pós-moderna.

Foi o que aconteceu comigo. Não me lembro exatamente do assunto em pauta naquela noite de tédio televisivo, mas me lembro bem da pergunta que fiz, mesmo porque já a decorei, num atípico caso de diagnóstico de Lesão por Esforço Repetitivo. Assistíamos a um telejornal e, de repente, acho que a discussão a respeito de um evento passado o instaurou a ele, o mítico (mas talvez já lendário) paradoxo temporal. “Mas isso não aconteceu há pouco?”, foi o que perguntei, assustado; “Se você chama 10 anos atrás de há pouco…”, foi o que me responderam, divertidos. De fato, confundir um decênio com pouco tempo, tendo você mal completado 30 anos, é confuso -assusta.

Mais confuso ainda, nessas ocasiões de revisionismo histórico, é poder olhar para trás e se dar conta do que poderíamos ter feito… e não fizemos. Dos sonhos todos que tivemos… antes de acordarmos. Sinceramente, acho que a casa dos trinta é o território mais crítico do Ser humano e sobretudo do permanecê-lo; das eras do indivíduo, a verdadeira e inóspita “Idade das Trevas”, despida dos preconceitos de pretensos iluminismos, neste caso ulteriores. Porque dá certo pessimismo, certa perplexidade. Dá uma melancolia, uma tristeza vaga, errante… enfim, uma “tristeza do infinito” -como já dizia o poeta.

Por falar em infinito, no que pensou exatamente Charlton Heston, provavelmente um conservador, quando se deparou com a Liberdade transformada em frangalhos pela trupe simiesca? Ou Sigourney Weaver, ao despertar de seu sono e constatar que os aliens eram a atração do pedaço? Onde é que estive eu, tendo perdido a “verdadeira” relevância e significado das transformações? Estar só, deslocado, parece um ciclo sem fim; especialmente para quem viveu em câmaras criogênicas, presumo. Não me levem a mal: não acredito em ficção científica. Apenas  não esperava ser surpreendido por sua clarividência. Assusta.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s