Canções sérvias. Goethe. Romantismo. Notas.

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Staiger, fumando um bagulho.

Numa de suas conversas com Eckermann, o poeta alemão Goethe disserta sobre canções sérvias. Eckermann afirma, sobre essas canções, que os motivos lhe parecem suficientemente fortes, até mesmo para se absterem de poesia; quer fossem escritas em verso ou não, a emoção que transmitem perduraria. Goethe concorda.

Ressalve-se que não possuo uma fonte direta; o que reproduzo é uma citação do sagaz Emil Staiger, em seu já célebre “Conceitos Fundamentais da Poética”. Mas confio na veracidade da história.

O que chama atenção, primeiramente, é a associação que tanto Eckermann quanto Goethe fazem de poesia com métrica. Há poesia onde há métrica. O próprio Emil Staiger abre esses parênteses, na obra citada, lembrando que, à época de Goethe, acreditava-se haver fôrmas específicas nas quais os conteúdos naturalmente se consubstanciassem em poesia. Quer dizer, o próprio Goethe, pelo que se infere, já começava a suspeitar desse formalismo, ainda que de maneira incipiente, imperfeita, mesmo porque ele ainda acreditava nos conteúdos “certos”.

A seguir, Staiger diz que os pintores românticos da época ficaram ressentidos com Goethe. Vaidosos e egocêntricos como eram, não era de se admirar. Afinal, se os motivos era o que realmente importava, a “inspiração”,  a técnica individual e a especificidade de cada tela pouco ou nada acrescentavam ao valor da obra, segundo a ótica de Goethe. Se fosse verdade sua teoria, a existência de um autor seria um mero detalhe… Polêmico.

Numa observação mais atenta, chega-se a notar as disparidades entre um autor teoricamente romântico, Goethe, e os demais artistas da mesma escola estética. Chega-se a se surpreender com o que se nota. Seu apego aos motivos o fez se distanciar do sensacionismo típico da escola romântica; “Dizem que uma poesia é bela, e pensam apenas na sensação, palavras e versos.”, teria dito Goethe, mas “a verdadeira força e valor de uma poesia está na situação, em seus motivos.”, complementa. O apego aos motivos ideais aproxima muito Goethe de uma valorização da verdade em oposição à apologia dos sentidos, o que lembra muito os gregos clássicos. No entanto, não era tão simples assim; na verdade, até em franca contradição com essa postura, Goethe era um entusiasta da “naturalidade” conforme a concebia o neo-classicismo pré-romântico, via Herder. De qualquer forma, não é isso o que me escandaliza mais intimamente.

Por exemplo, se era possível que os românticos desprezassem os motivos, era uma consequência óbvia que desprezassem também a realidade do amor. Os românticos não acreditavam na realidade do amor, assim como não acreditavam em qualquer realidade outra que não pudessem sentir. Daí, talvez, a preferência por cantar amores não-correspondidos ou inventados, fontes de sentimento muito mais individuais do que o amor erótico, necessariamente compartilhado e, como agravante, objetivo. Daí a profusão de lirismo nos oitocentos e a nostalgia romântica dos tempos medievais, cujas canções versavam sobre o artificialesco amor cortês. E mais. A valorização da música, que mais imediatamente materializava aquele seu tão querido “pathos”, não independia completamente dos motivos; na verdade, até os pressupunha; “a moça que não deseja a quem não ama”, mote de uma canção sérvia, antes fala sobre o ressentimento de quem a lê/escreve do que sobre o caso em si, sendo reproduzido em ritmo, em música justamente porque quem o faz não pode ou não quer racionalizar o que o motiva.

Goethe

Mas, chega de digressões: o que importa é destacar que forma e conteúdo podem ser equacionados, não obstante a rebeldia de Goethe e os preconceitos da poética antiga. E vou além. Emil Staiger, todo tradicional, diz que a lírica não pode ser valorada, já que diz respeito mais ao sentimento do que à compreensão. Não é o que penso. A lírica sempre foi associada a um estado de psicopatologia, a um passado não totalmente superado, a um presente contínuo. Nem sempre, porém, uma poesia considerada “lírica”, especialmente hoje, tem esses predicados.

Como dizia Shakeaspeare, há mais coisas entre o céu e a Terra do que suspeita a nossa vã filosofia. Como se vê, há mais coisas entre a conversa de dois alemães do que suspeita a nossa vã Poética. Ah, sei lá…

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