Cenas Excluídas

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Uma das inovações mais interessantes trazidas pelo formato de filmes em DVD são as informações a respeito das cenas excluídas, das anedotas dos bastidores, dos atores comentando sobre o filme e outras miudezas mais. É triste porque, às vezes, não são propriamente as “miudezas” esperadas e acabam sendo só o que tem de interessante no filme. É o Big Brother invadindo Hollywood.

Veja você que, na verdade, esse já era um fenômeno cultural esperado. Hollywood não representa o mundo, representa um espetáculo. Aquele que assiste a um filme hollywoodiano, via de regra, não está interessado na realidade metaforizada; está interessado nos Aquiles, nos fodões, nos semi-deuses em que se têm transformado, cada vez mais, as figuras dos ídolos em si. Uma pessoa, há muito tempo, não vai mais ao cinema movido sequer pela “história” do filme, mas sim por causa da Angelina Jolie, que o estrelará.

Os próprios traillers ilustram bem o que eu quero dizer. Não é de hoje que muita gente assiste entusiasmada  a um trailler e depois acha uma bela porcaria o filme. A propaganda é melhor do que o produto. Metem lá umas cenas explosivas (na verdade, as únicas que prestam na película…), uma trilha sonora “épica”, meia dúzia de atores “de primeira linha” e pronto; eis a fórmula do sucesso. Algumas vezes dá até certo: veja por exemplo o que acontece com Avatar ou Titanic.

Esse esvaziamento de conteúdo é o cumprimento da profecia dos 15 minutos de fama -que talvez sejam estendidos a 30, no futuro. Hollywood queimou tanto o seu filme que vai acabar aceitando até rolo caseiro, em busca de novos argumentos e, claro, de onde estão os holofotes. Afinal, é bem verdade que, muitas vezes, as circunstâncias envolvendo o filme têm tomado cada vez mais o lugar deles. As cerimônias do Oscar, os pré-lançamentos nos shoppings cariocas, cheios de repórteres e candidatos a celebridade… Fico pensando se não seria uma boa ideia filmar um ilustre desconhecido no ato de assistir a um filme.

Sabe como se faz para reconhecer um cinéfilo? É fácil. Quando estiver assistindo filme com o suspeito, procure pelo controle remoto; se estiver próximo da perna do dito cujo e ele não largar nem para cagar, fique atento. Quando começarem os traillers, tente puxar papo com ele; se for mesmo um cinéfilo, vai ficar irritado com sua impertinência. Então, se você pedir para ele clicar no menu e começar logo a porra do filme, se prepare; ele pode até imprecar contra a humanidade toda enquanto procura pelo forward. Hilário.

A propósito, o fato de dizer rewind ou forward é um indicativo de que o cara é viciado, além de ser do arco-da-velha. É sinal de que ele alugava umas fitas k-7 (se lembra?) e ainda não se acostumou com os aparelhos de DVD. Além de ser uma garantia evidente de que se trata de alguém com algumas preferências de gosto típicas de cinéfilos, como comentar entusiasticamente sobre alguma continuação de Star Wars que está para sair ou lamentar a sorte do “grande” Jean Claude van Damme. Excêntrico -e o que é excêntrico, hoje, atrai e vende.

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