Deforma Ortográfica

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Uma vez eu li, num texto do Machado de Assis, que “nem todos os pretos gostavam de apanhar pancada”. Fiquei perplexo, meditando sobre aquilo… Apanhar pancada?! Hoje em dia não se usa mais “apanhar pancada”. A gente ouve que o sujeito apanhou e logo vai entendendo, quase que se livrando, melindrosos, dos demais acréscimos; é verbo que perdeu a transitividade, mas manteve a brutalidade. E isso é agora para quem ouve, pois para quem apanha nunca foi preciso mais explicações, desdobramentos…

Eu gosto de Machado de Assis. Gosto também da época em que viveu, em plena vigência da escravatura. Havia muita gente sensata, muita gente que fez muito por nós. E também, por que não?, muita doutrina maluca, mas engraçada surgindo, como o darwinismo, o positivismo, o comunismo, o determinismo e o parnasianismo, entre outros. Era uma época de escravidão, correto, mas de uma escravidão que se restringia ao âmbito das relações em sociedade, não ultrapassava a fronteira da cultura.

Para provar o valor dos oitocentos, vejam vocês o sumo que se pode extrair de algo sumamente ridículo, como o positivismo: é bem verdade que o uso faz a palavra? É bem verdade, eu lhe digo. E lhe digo mais: é lei, quando estudamos filologia. Os sujeitos falantes da língua é que determinam sua mutação, gradualmente, século a século. A língua é como uma entidade orgânica influindo sobre nós, que paira um pouco acima do tempo, infensa a qualquer apreensão. A língua é um pouco do Verbo. Eu mesmo, como professor de português, sei das dificuldades que a gramática tem para domá-la. Qualquer professor de português sabe.

Então por que diabos os acadêmicos tiveram a ideia de, segundo eles, “facilitar” e “unificar” a língua? Eles não sabiam das leis filológicas? Se não sabiam já não poderiam se responsabilizar pela tarefa, não?

Eu não sei se caberia uma manifestação para a reforma da língua ou se uma manifestação para a reforma da língua. Pois, segundo os eruditos, a questão é muito fácil, embora eu aposte que você não entendeu necas do que falei, no início do parágrafo. E nem teria como: o verbo “parar” ganhou a mesma grafia, no presente do indicativo, que a preposição “para”.

Mas não se preocupe: de qualquer forma, não haverá manifestação. O brasileiro enfim aprendeu a levar pancada e ficar sem melhor explicação -que, desta vez, seria conveniente.

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