Brega e Chic

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Falcão em "Quanto Pior, Melhor": chic por assumir sua (nossa) grossura

Não existe nada mais cafona do que o kitsch. Até mesmo o Falcão é menos espalhafatoso, em seus ternos psicodélicos com uma margarida-jaca na lapela, do que aqueles que andam por aí (tra)vestidos de sofisticação, cantarolando Bossa Nova e Cartola no mp3 ou “apreciando” instalações auto-denominadas “artísticas”, onde se coloca um cocô ao lado de uma rosa e de um monte de bobocas tentando desesperadamente compreender, enquanto se esforçam por fazer mímica de entendidos, que PORRA afinal é aquela. Ora, sofisticação é um atributo que se toma de empréstimo por elogio alheio; você não pode simplesmente raptá-lo, ou cooptá-lo por meio de cacoetes: isso é caricatura. E fazer caricatura, a menos que estejamos falando de um humorista ou de um cartunista aqui, não fica bem para os demais.

Você veja bem que não estou querendo dizer que é tosco ouvir Jazz ou Rock ‘n’ Roll, bobagem ler Paulo Coelho ou Paulo Leminski. Não se trata disso. Juízo de valor e juízo de gosto são duas atividades complementares, apesar de muita gente (cafona…) querer que se passem por coincidentes. Eu, por exemplo, citei coisa que não gosto, como Bossa Nova, para me referir aos cafonas, mas poderia citar igualmente um gênero de minha preferência, como o Heavy Metal, para falar de gente assim. Se optei pelos “bossas”, é porque quis propositalmente chamar a atenção para os insuspeitados limites fronteiriços, hoje, entre tosquice e erudição.

Sim, porque a erudição que alguém adquiria no século XV, por exemplo, não era a mesma que se adquire hoje. Era melhor. Seja em virtude da agitação da vida moderna, seja por culpa da televisão, não importa, o fato inequívoco é que ficamos mais analfabetos. É possível? Se é! Antigamente, quando o cara queria aprender, andava meio mundo sob as condições mais adversas, comprava alfarrábios e papiros a peso de ouro e ficava a vida toda estudando em troca de nada, geralmente enclausurado num mosteiro; hoje o cara só quer aprender para ser chamado de “doutô” e ainda reclama de ter de pagar 80 reais por um livro, vestindo um Armani. Pois é curioso que, justamente quando temos mais acesso à informação, pior uso dela façamos, não é verdade? A isso se chama “analfabetismo funcional”. Com efeito, o sujeito entra na faculdade, decora meia dúzia de coisas, interpreta isso como acréscimo de QI, conhece uns caras que se vestem caro, interpreta isso como acréscimo de QI, sai com os caras caros que conhecem outros caras caros e famosos e interpreta isso como ascensão ao estado de genialidade. Analfabetismo funcional.

A novela "Brega & Chic": folhetim bem menos brega do que alguns "Bossa Velhos" que vicejam por aí...

É claro que é muito tentador que, aqui, alguns dos náufragos culturais tentem se ancorar, numa última cartada, entre vexados e orgulhosos, dizendo que a cafonice é um fenômeno cultural tipicamente brasileiro, como a crônica enquanto gênero literário. De fato, parvoíces como o parnasianismo e o positivismo ecoaram por décadas a fio por aqui, mas isso não exclui a Europa (os EUA então nem se fala…) de manchas aberrantes e multicoloridas, discretamente postas para debaixo do tapete de sua história, feita quase toda de tons monocromáticos, como o branco da pele e o vermelho do sangue das guerras.

Quando se fala nisso, logo vem a nossa mente a figura excêntrica de um Luís XIV, o Walter Mercado do século XVIII -mas nem precisamos ir muito longe. Isso porque inauguraram a breguice globalizada nos nossos tempos, uma nova era da cafonice que poderia ser denominada “Cafonalhagem”. O exemplo mais aberrante disso parte da MTV, que tenta nos empurrar, a todo custo, aquelas bandas indie da Inglaterra goela abaixo. Indie, para resumir o enredo, é um gênero musical que tenta intelectualizar algo naturalmente despretensioso, como o pop. Até aí, tudo bem; cada um no seu quadrado. O grande problema é eles se acharem no direito de achacar o pop e ao mesmo tempo se considerarem (ainda que implicitamente) melhores do que os músicos deste gênero, sendo o indie mesmo apenas uma variante, uma “atualização” mercadológica da música empacotada.

Mas eu desconfio que estamos longe por demais da elegância para podermos ter a pretensão de voltar atrás –ou ir para frente. Ficamos no meio do caminho. Olho para um lado e vejo os quadros “abstratos” feitos pela técnica de descordenação motora do ilustre senhor Zé-das-Couves-da-Vez; olho para trás e assisto à pretensão vintage de quem se acha o tal porque lê meia dúzia de autores pós-modernos; e olho para frente para assistir mais do mesmo, que vem por aí. Puta que pariu…

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