Be patient, but not stupid.

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Uma vez, ao saber que eu escrevia poemas e contos, uma pessoa me disse que isso era bom, para eu liberar meus “sentimentos”. Nunca pensei em ser elogiado e chamado de retardado numa mesma frase -realmente, uma façanha. Mas, hmmm, a modéstia (para não dizer outra coisa) me fez discordar dela… Hospícios estão cheios de “aberrações” precisando liberar sentimentos; isso os mantêm calmos e na linha. Eu escrevo porque gosto e sobretudo porque sou bom no que faço; se precisasse de um psiquiatra, procuraria um psiquiatra, não usaria a literatura como muleta.

Já devem ter percebido que eu fiquei uma arara, não é verdade? Mas não só por ter minha dignidade pessoal manchada; dizer que a literatura era importante para liberar “sentimentos” é coisa que desonra mais a ela do que a mim. Literatura não é um remédio para os deprimidos: é um veneno para os sãos. Por isso se espantam quando leem algo além de Contigo ou das previsões astrológicas para o ano seguinte. Logo tentam encontrar uma maneira de afastar aquilo que lhes incomoda, achando uma “utilidade” para a literatura, que é mais um libelo de libertação do que uma forma de amordaçamento social, de “sadia” catarse.

Mas eu estive pensando: quem neste mundo não é um retardado num hospício? Este mundo é louco e inclui as pessoas em seus delírios.  É claro que estou aumentando a escala em zilhões de vezes. A própria mulher que me ofendeu talvez não tivesse essa intenção, talvez tudo tenha passado de um mal entendido -fruto de minha confessada neurose. Talvez ela simplesmente, por não ser uma entendida no assunto, estivesse dando as interpretações dela, com as boas intenções de que o inferno já está cheio. As pessoas reproduzem discursos que não lhes são próprios, às vezes por ingenuidade; manter gente “calma e na linha”, manter gente produtiva e adestrada, se não é coisa da literatura (aliás, muito pelo contrário…), ao menos é o que desejaria esta sociedade.

Estou cansado, mas não estou morto. Vejo que muito do que fiz foi exagerado, inconsequente, mais fruto de traumas do que eu poderia imaginar. Não quero dizer que não esteja certo nas coisas que digo: apenas que eu deveria ter paciência na mesma proporção que muitos tiveram comigo. Hoje já não luto pela profissionalização dos escritores, porque percebo que esse conceito de “profissionalização” é algo mecânico que só beneficia a eles; somente a esta sociedade interessa afastar as pessoas da literatura ou usá-la, caso seja inevitável, ao seu favor. Os livros de auto-ajuda estão aí, bombando nas livrarias, para comprovar.

Quando alguém, hoje, vem me mostrar algum poema que tenha escrito, mesmo que seja uma bela porcaria (como, na maior parte da vezes, é…), eu apenas sorrio e recomendo meus escritores favoritos. Eu me resigno. Além do mais, afinal, não é fácil nem mesmo para mim, o supremo “entendido” que sempre me julguei, me livrar, também, do fermento dos fariseus…

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