Fazendo novelas com Glória

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Sim, eu sei. O trocadilho é infame. Mas é verdadeiro. Afinal, não existe autor global com maior capacidade para escrever novelas do que Glória Perez. Outros metem os pés pelas mãos acelerando o enredo, fazendo panfletagem ou abusando de maniqueísmos. Defeitos que, em Glória, são inexistentes ou minorados.

É claro que não estou dizendo que ela seja um primor literário. Novela televisiva, até mesmo guardando suas relações com o gênero literário (à excessão provável de Dom Quixote) de mesmo nome, possui o defeito de valorizar a ação em detrimento dos personagens; daí a necessidade de intrigas mirabolantes e de antagonismos reducionistas, tanto na TV quanto nos romances de jornal. Mas o que chama atenção em “Caminho das Índias”, último dos folhetins da autora, é o caráter dúbio da ação das personagens; nunca uma personagem dessa novela está cem por cento certo ou cem por cento errado.

Nem sempre foi assim. Aliás nem é a regra, embora devesse ser -como comprova a própria audiência de “Caminho das Índias”. As pessoas se sentem identificadas com representações mais próximas da realidade; quando elas têm a oportunidade de enxergar na TV algo muito próximo do que são, isso chama a atenção. Vide a audiência do Big Brother, por exemplo. Evidente que ainda prevalece aquela tendência, no telespectador de telenovela, de ver punidos os “maus” e premiados os “bons”, o que nos traz sempre de volta às velhas novelas de sempre. Mas mesmo esse padrão também é, até certo ponto, uma construção de valores.

E quem constrói os valores na sociedade é quem detém o poder. E detém o poder aquele que fornece uma visão de mundo, que só pode chegar até nós através da cultura. Logo, é a Rede Globo de quem depende a maioria da população brasileira para formar uma consciência crítica… Isso é meio desanimador, de fato; mas observando o que certos autores têm feito, há, sem dúvida, um progresso.

Tudo isso é mais ou menos como o apuramento do paladar ao longo da vida. Quando era criança, não gostava de certas coisas que hoje aprecio. Não posso saber se estou pior de língua, mas posso dizer com certeza que me alimento de maneira muito mais saudável do que durante a minha infância (rs). Com as novelas, quem sabe não se dá o mesmo? Seria bom, até porque tenho me tornado um noveleiro contumaz (rs). Enfim, parabéns, Glória Perez.

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