Antropologia entrópica

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Arch EnemyPassamos todos os dias de nossas vidas pensando no que ser e, no fim das contas, acabamos por nos tornar a mesma coisa. No início, porém, nossas trajetórias têm um itinerário predefinido por nossos pais e, em parte, até por nós mesmos. Se forem pais de classe média, querem que nos formenos por uma universidade pública e alcancemos sucesso em nossas profissões; se formos adolescentes e crianças normais, não importa a classe, queremos ser astronautas ou jogadores de futebol. Inevitavelmente, muitas coordenadas desse mapa não correspondem à realidade, ainda que as mais plausíveis.

Chama a atenção o erro dos pais. Se, por experiência própria, eles sabem que planejar um futuro para o filho não dá certo na prática, por que incorrem no mesmo erro dos seus progenitores? Talvez seja uma maneira irracional de superproteção, mas não acredito. Acho que a imitação dos próprios pais traz  segurança na maneira como lidamos com os nossos filhos; afinal, somos calouros, e um exemplo bem-sucedido pode muito bem guiar nossos primeiros passos em cada um dos estágios difíceis pelos quais, sabemos, passa o ser humano até chegar à vida adulta.

Mas aí olhamos nos espelhos da vida e não mantemos a mesma segurança. Estamos velhos e tristes, e, pior do que isso, estamos distantes do que acreditaríamos ser uma imagem bem-sucedida ou um exemplo de comportamento.  Quer essa realidade proceda ou não, já não somos mais os mesmos, sabemos. Lembramos dos valores que defendiam nossos avós, sobretudo da imagem imaculada deles; casados por décadas a fio, sua presença era respeitável por si mesma. Hoje, absorvidos pela mentalidade moderna, de jovialidade e de sucesso, nos vestimos e nos comportamos como nossos filhos, com relações instáveis e intensas, e por isso não passamos de meros “amigos” deles; conseguir com que nos ouçam ou nos respeitem é uma tarefa inglória.

Não falo isso como pai, falo da perspectiva de alguém que acompanha a transformação de valores e a degradação da família bem de perto. Em programas de TV, quando perguntado se deixaria a filha posar nua, uma pai responde, sorrindo, que deixaria sim, desde que “isso a fizesse feliz”. Todo mundo aplaude. Ou seja, com essa espécie de mantra, repetido por 10 entre 10 pais modernos, se justifica tudo – até a irreponsabilidade paterna. Está na moda tirar o corpo fora, desde que se saiba utilizar bordões eufemistas que  “respeitem a liberdade alheia”. ..

O modelo de bom pai dos modernosos é o daquele que paga por bons estudos e cria um filho que se insere na sociedade. Não se pede mais do que isso. Trabalhar, ganhar dinheiro, criar o tamagoshi de carne e osso sem deixá-lo morrer e, quem sabe, até ganhar algum tutu com isso, tempos mais tarde. Pouca gente tem coragem de escapar, pois prefere acreditar que age em conformidade com a famigerada “tradição”, que leva a culpa  pelo sistema, quando, nas décadas seguintes, condenamos os erros do passado.

Não mudamos, enfim, pelo que nossos pais preconizam ou representam; eles são apenas as fôrmas novas que a sociedade de hoje preenche. E assim é que se sucede com o ciclo vicioso da existência. Você se torna o que nunca pensou que se tornaria, por culpa de agentes discretos que atuam sobre si como forças invisíveis. E o que fazer? Lutar. E quando tudo estiver perdido (pois invariavelmente vai estar), fumar até a guimba; ainda vai restar tempo, quem sabe, de dar uma última transpirada e lembrar dos bons momentos, antes de morrer desse câncer.

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