Literatura infantil = leitores infantis?

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Quando entrei na faculdade de Letras e soube que teria que estudar literatura infantil, tive calafrios. Para mim, um calouro ignorante e presunçoso, “literatura infantil” era uma palavra que servia para caracterizar uma categoria pedagógica de textos que se reduziam a um agregado de histórias fantasiosas, feitas para entreter e educar crianças. Não estava errado em tudo, enfim; de fato, fiquei encantado e aprendi muito nos dois períodos em que tive a oportunidade de desbravar esse mundo…

Os adultos sofrem da mesma doença que, em escala menor, se observa nas crianças. Crianças se recusam a tomar banho porque isso consumiria um tempo em que elas poderiam estar se divertindo; adultos se recusam a aceitar o novo porque isso demandaria uma higienização no entulho de arquivos mentais com um sem-número de informações mal selecionadas. Por isso ambos podem se servir, talvez com igual proveito, de literatura infantil.

Contos como o de Andersen e poemas como os de Cecília Meireles, por exemplo, podem ser uma porta de entrada de fácil acesso para um mundo onde só se tem a ganhar. A linguagem fluida e fácil da literatura infantil seduz por si mesma. Crianças, sempre precipitadas e egocêntricas, ganham um fôlego extra para melhor absorver, ao folhear as páginas de um livro, o fascínio de um mundo que não é o seu; adultos de repente redescobrem a beleza de uma vida além da burocratização.

Há também, é claro, o lado pedagógico da literatura infantil. Fica mais fácil se digerir lições primordiais sobre a vida quando se enxerga de longe o desenrolar de seus acontecimentos, embebidos do rico e exuberante néctar da imaginação transfiguradora desse semideus que é o homem. Aliás, sob esse aspecto, a literatura  não cumpre apenas uma função pedagógica quando infantil; é um contínuo ritual de passagem também para o homem já adulto, que, se já trilhou boa parte do caminho que uma criança ainda inicia, possui a “desvantagem” de intuir uma estrada não-percorrida ainda longa e cheia de encruzilhadas.

Por isso, seja “infantil” ou “adulta”, a literatura é uma obra aberta em essência -como a vida. Nenhuma obra de arte escrita, portanto, pode ganhar pechas simplificadoras, negando o abismo de individualidade -de um povo ou de um autor específico -que se projetou no que fez. Logo, leitores simplórios, infantis, se não sabem reconhecer a literatura no mais simples, muito menos saberão interpretar o complexo, o “adulto”, tirando de suas leituras levianas muito mais a bílis de  suas frustrações intelectuais do que o sumo de uma compreensão verdadeira, sempre longa e livre de premeditações.

Com seu pinóquio, por exemplo, Corradi quis ensinar às crianças o quão é feio mentir. Uma lição que muitos adultos ainda se recusam a aprender. Tudo isso justifica o fascínio que o personagem exerce sobre todas as faixas etárias.

Com seu Pinóquio, por exemplo, Corradi quis ensinar às crianças o quão é feio mentir. Uma lição que muitos adultos ainda se recusam a aprender. Tudo isso justifica o fascínio que o personagem exerce, sobre todas as faixas etárias.
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