Japão: extremo oriente ou ocidente extremo?

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japãoQuando se fala em cultura regional ou cosmopolita, o Japão se torna um fascinante ponto de referência, para bem ou para mal. Não só porque, tradicionalmente, a cultura japonesa nos pareça exótica e específica sob os mais diversos aspectos, mas também porque, exatamente por isso, é intrigante observar como os japoneses se moldaram tão perfeitamente à famigerada modernidade ocidental, que tudo devora e massifica.

À época mercantilista, quando o Japão ainda vivia sob um regime sócio-econômico feudal e todo particular, tudo o que provinha de fora era sistematicamente rechaçado. Os grandes navegadores que por lá aportavam, não obstante fossem tidos pelos nativos americanos como emissários dos deuses, não passavam de meros forasteiros para o povo japonês. E, se talvez o impressionassem, não iriam além de arautos demoníacos muito provavelmente.

É interessante observar como os povos do Oriente são tão mais místicos que os nossos, do outro lado do mundo. É como se lhes houvesse um véu e, portanto, uma aura de sacralidade sobre o real; daí os japoneses “medievais” terem desprezado a novidade europeia, ao passo que os ameríndios a acolheram como um verdadeiro milagre.  Evidente que, seja na Europa, seja na América pré-descobrimento, sempre houve uma acendrada religiosidade -mas não é desse misticismo que falo. O misticismo, para os orientais, não é classificável, organizável, institucionalizável: é difuso, é interior…

Vejam o caso da Terra do Sol-Nascente. Tudo para os japoneses toma uma outra proporção, como se o real tivesse necessidade de ser mitificado para se tornar mais real. Os japoneses não conseguem viver sem sentir o sangue quente da vida, com as veias entreabertas, moribunda; nada lhes parece natural. Desde sempre, estão sempre em guerra consigo mesmos, seja essa belicosidade traduzida no exterior, como nas guerras civis de outrora, ou, como agora, calcada na introspecção. Os japoneses, com sua súbita transfiguração comportamental, parecem assumir, para nós, identidades mal digeridas. Mas não para si mesmos.

Nessa perspectiva paradoxal é que, penso, a contemporaneidade possa ser interpretada como o seu tempo e o seu reino -e não o nosso -seja em termos de compreensão ou de adaptação. Se, por um lado, a sociedade japonesa é guerreira demais para os novos e civilizados tempos, por outro lado ela incorpora o ideal de competitividade e disciplina de um mundo altamente técnico que se refaz ferozmente a cada dia, deixando para trás os retardatários. Se, por um lado, seu senso de unidade cultural a torne um dos povos mais fechados e xenófobos do planeta, por outro lado nenhum povo como o deles enxerga a realidade como uma construção, possibilitando um ecletismo nos métodos de representação do real (na moda, na música, nos mangás etc.), bem em consonância com um mundo cada vez mais globalizado.

Mas nenhuma dessas observações humanas supera o espanto da dúvida  que Deus já nos lançara de antemão sobre o Japão, ao mover céus e terras:  seria ele o extremo oriente ou o ocidente extremo do mundo, geográfico ou histórico? Talvez um, talvez outro. Mas, muito provavelmente, ambos.

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