O câncer das metrópoles

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CidadeMorar numa cidade é como contrair matrimônio com ela. Por mais que haja um encanto mútuo inicial, a relação arrefece com o tempo; seja pela monotonia, seja pelos becos sujos que se vão descobrindo, reciprocamente, os olhos vão se acostumando com a paisagem desgastada e a névoa do inverno se torna perene, nos coagindo a uma hibernação cruciante… A cidade parece dormir quando você acorda; você parece sonambulante em suas ruas agitadas de luz e festejantes de gente… Aí é que trocamos de ares, saudosos de estio.

Mas deixemos de lado a antropologia. Vamos à análise do discurso. Desconfio do verbo “contrair”, que antecede qualquer “matrimônio”; para mim, “contrair” vai sempre estar relacionado a doença. Mas, veja bem: não desconfio do “matrimônio” em si. Sou um sujeito sintático, associo o 4 ao 2+2, mesmo que não estejamos tratando de gramática.

Vejam o caso de Nova York,  por exemplo. Um mito contemporâneo dos casos de amor incondicionais. É uma cidade bonita sim, mas eu não me vejo morando nela. Para começar, detesto frio. Para terminar, não tenho dinheiro. E não há relação que sobreviva à falta de “calor”, como se sabe…  portanto é mais salutar para o amor quando ele permanece platônico.

Por outro lado, calor em excesso pode atrapalhar. O Rio, como nós brasileiros bem sabemos, só se vale do marketing natural, já que o artificial só serve para quem vem de fora. E nossa proximidade nos revela o que os gringos só  descobrem na própria pele quando vêm conhecer a Cidade Maravilhosa: que ela é uma biscate oportunista.

Considerados os fatos, hodiernos, voltemos aos mitos, ancestrais. Será que existe mesmo uma Sangri-lá além do Himalaia? Quando a esmola é demais, o santo desconfia. Quanto mais quando as relações sintáticas são pouco prováveis. Quando cruzamos a avenida da esperança, encontramos o beco do desespero? Sem saída, sem razão de ser, intransitável e intransitivo…

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