“Black Society”

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Há pouco eu estava assistindo a um documentário da TVI, uma emissora portuguesa, sobre o Black Metal. Fico impressionado com a visão distorcida que apresentaram. E não me refiro aos blackheads, de cuja estupidez eu próprio sou um profundo conhecedor, mas dos repórteres e dos sociólogos ligados à produção jornalística.

Não quero fazer apologia do Black Metal, mesmo porque tenho profundas e severas restrições ao “pensamento” dessas pessoas, mas não posso deixar de observar a leviandade com que essa sociedade trata aquilo que não se encaixa nos moldes do “lego” contemporâneo. Há sempre que se fazer a denúncia do espírito preguiçoso e engessado da modernidade, auto-proclamada o ápice da “evolução”,  para deixar cada vez mais clara a ilusão de sua natureza globalizada e cosmopolita. Na verdade, a modernidade se mostra cada vez mais como a princesa da morte, fútil e lassa, que se enclausura em sua torre de marfim, recoberta dos despojos humanos do que um dia se convencionou chamar “cultura”…

O sociólogo entrevistado pela TVI, por exemplo, ao interpretar as atitudes dos jovens blackheads, atribuiu-as a alguma espécie de revolta difusa deles relacionada a algum aspecto de sua vida prática, revolta direcionada, por isso, contra a sociedade; seus ideais e conceitos seriam meras retaliações, instrumentos nos quais poderiam depositar sua ira irrefletida. Ou seja, esse sociólogo quis reduzir uma manifestação cultural, talvez tão legítima como as outras,  a um mero transtorno psicológico resultante de uma imaturidade na maneira de absorver e interpretar o mundo. E por quê? Porque, entre outras coisas, os blackheads chocam; sua postura e seus ideais não encontram um discurso legitimador, neste mundo geralmente consolidado pela mídia anencéfala.

Ora, isso é típico dessa sociedade, que se diz libertária, mas que reage àquilo que lhe ameaça exatamente como qualquer outra taxada de “opressiva”. Isso porque sua presunção e sua visão pré-conceituosa, em relação sobretudo ao que se lhe opõe, lhe impede de reconhecer como digna de  real reflexão, no sentido de uma mudança, as dicotomias heterodoxas à sua natureza falsamente democrática. Para o mundo moderno existe um “yng” e um “yang” próprios à sua maneira de conceber o mundo, relativista e dialética, mas o que se apresenta como além disso é interpretado como “esquizofrênico” -mas unicamente por se tratar de algo que o sistema não pode absorver, não que não exista.

Com efeito, aqueles que se evadem da realidade não são os blackheads ou qualquer outra tribo, urbana ou não, desprezada pelo status quo social. Quem foge da realidade é esta sociedade, que ignora suas próprias contradições demolidoras, buscando deixar à margem de seu “progresso” aqueles oscilantes e inconformados que se opõem (ou aqueles que tão-somente pressentem) sua marcha “gloriosa” rumo ao caos e ao Nada.

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