Sérgio Sant’anna, o sobrevivente.

Padrão

Dentre os expoentes da literatura nacional, um de que sempre ouvimos falar é Sérgio Sant’anna. É um autor que sempre figura com prestígio ilibado na boca dos críticos, embora não se possa dizer o mesmo a respeito de outro queridinho deles: Rubem Fonseca. Não que o autor de Feliz Ano Novo tenha perdido o talento; de fato, suas obras mais antigas são, para mim (e para os críticos também), o melhor de seu espólio. Só que Rubem não se “renova”, como o está sempre fazendo o Sérgio, e isso parece ser um mantra sagrado, um ritual de passagem para que determinado autor alcançe seu ápice como artista, no Brasil.

Ora, quem acompanha a carreira de Sérgio, se for honesto, sabe que houve um ligeiro declínio na sua evolução. Daí já não se pode falar em “evolução”, certo? Não se deveria. Mas é que grande parte da crítica não consegue dissociar a experiência do homem da experiência do autor, muito embora isso já tenha sido superado há séculos como parâmetro para julgamento estético. Algumas vezes, por exemplo, certas posturas suas são julgadas como reflexo do tempo que viveu -e aplaudidas por isso. Algumas vezes, não, embora nem por isso sua “capacidade de se reinventar” deixe de ser citada como uma qualidade literária em si.

Mas nem sempre a maturidade do homem acompanha a maturidade do autor, especialmente no caso específico do autor de que tratamos. Para mim, por exemplo, “O Sobrevivente”, livro de estréia de Sérgio, é um dos melhores que já li em toda minha vida. Nesta obra, as personagens parecem, quase todas, reinventar o mundo, de dentro para fora; à excessão de “O Albergue” e de alguns outros, a maior parte dos contos apresenta gente que, apesar de ingênua, enxerga tudo de fora do senso comum, quase que como livre das amarras sociais através das quais, às vezes quase que imperceptivelmente, nós somos coagidos a “atuar” em conformidade; e isso não é fácil. Nos livros posteriores, o enfoque urbano é mantido, bem como aquela introspecção oracular, uma marca registrada do autor, mas as histórias se perdem no labirinto semiótico pelo qual Sérgio se deixa seduzir, na minha opinião (nesse sentido, “As Cartas Não Mentem Jamais” é emblemático).

A semiótica é uma ciência da linguagem muito em voga até hoje. Sérgio Santa’anna não deixa, portanto, de se adaptar aos tempos, sobrevivendo às suas exigências. Mas isso, por si só, não o torna pior ou melhor artista, porque, afinal, todos estamos sujeitos às contingências da vida. O que nos assusta num autor tupiniquim, hoje, é a suspeita de estarem cada vez mais reféns do pior de nossa “inteligência” acadêmica, com seus concursos e julgamentos, essa sim, fora do tempo e da realidade. E isso, para a literatura brasileira, já não é o risco de sobreviver: é o de vegetar.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s