Pichação de bienal: crime. Mas crime com charme. E com alguma beleza.

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Dias atrás foi noticiada uma pichação envolvendo uma menina chamada Caroline Pivetta (olha que nome sugestivo…) e um estudante de belas-artes, chamado Rafael Martins. Não era uma pichação comum, porque envolvia uma bienal de artes de São Paulo. E um motivo… artístico. Não preciso dizer que isso levanta muitas e pertinentes questões a respeito de arte, crime e degradação; até onde vão os limites da arte, equanto subversão, e até onde a arte é válida, enquanto atitude contestatória?

Aqui é preciso abrir  parênteses. Arte nunca foi nem nunca será “inversão”, como ingenuamente se justifica o garoto. E aliás, vejam só mais que ironia, como ingenuamente são justificadas as próprias bienais de arte, com seus quadros e “instalações” de “vanguarda”, de valor altamente subjetivo. Quando Charles Baudelaire apareceu, na metade do século XIX, com sua arte subversiva, muitos associaram a característica como condição sine qua non para a existência do substantivo, e isso propiciou que as carroças viessem à frente dos bois. Os manifestos e as  “filosofias” dos movimentos “artísticos” do século vinte prevaleceram sobre seu conteúdo estético; para a elite pseudo-intelectual que começava a se formar, isso era puro fetichismo kitsch, com a imagem de erudição substituindo a própria erudição, e com o dinheiro, algo que eles bem entendiam, substituindo a beleza, que ignoravam. E estamos falando apenas da ponta do iceberg.

Num blog associado ao grupo do jovem, “PiXação: Arte Ataque Protesto”, as atitudes de Rafael e de seus comparsas são justificadas como trabalho final de seu curso de belas-artes. Poderia parecer cinismo, mas não é. A própria professora instigou a agressividade de seu aluno, tratando a mesma como o próprio conteúdo estético da obra requerida, ao invés de matéria-prima: a mestra, segundo ele,  “disse que seu trabalho de conclusão de curso devia ‘apavorar’, colocar para fora a raiva que carrega dentro de si”. Ora, do que eles ainda reclamam então? De serem alvos dessa raiva? Então esse tipo de “arte” só é justificável se o alvo for um desafeto em comum? E quem seria? O “passado”? Talvez seja. Afinal, o genuíno dadaísmo de que o grupo se tornou expoente, durante a bienal, é coisa do passado, sem valor… Ou será que não? As “obras de arte” dadaístas não são as mesmas que são vendidas, ainda hoje, no mundo todo, por valores (e falemos baixo aqui…) exorbitantes, ou não são? Mas os valores financeiros não são o mesmo que os valores estéticos nem que os éticos, diria um leitor mais atento. E eu concordaria, em absoluto.

Os nossos acadêmicos têm a mania de aplaudir a desordem sim, mas apenas quando ela faz parte de uma ordem maior; querem reorganizar o mundo segundo a imagem e semelhança do homem, liberto de qualquer dogmatismo -mas desde que esse homem concorde com os dogmatismos de outros homens…  É por isso que eu aplaudiria a Rafael e a seu bando de “artistas”, formados nas faculdades de arte da vida, se eles se decidissem, agora, por explodir os museus de arte moderna do país. Na minha cabeça deformada de “marginal” (e na deles), seria totalmente coerente.  Porque uma parte de mim, como bom cidadão moderno, também é  adepta de coisas sensatas como, por exemplo, a ordem pressupondo a desordem.

Se a sociedade quer, por seus próprios meios, chegar a ser Deus, por que impedir? Toda Torre de Babel está destinada a cair, meus caros. E estamos de mãos atadas em relação a isso. Até porque a Justiça, de que o Tempo é testemunha, é uma obra belíssima de um verdadeiro Deus, com suas alegorias e lições.

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